0

11.08.16 - Resenha de "Cidade Em Chamas" de Garth Risk Hallberg

Posted by Stella on 15:11 in ,
Cidade Em Chamas é o primeiro livro do autor Garth Risk Hallberg e foi publicado em Outubro/2015 pela editora Alfred A. Knopf. No Brasil, ele foi lançado em Abril desse ano pela Companhia das Letras, na tradução de Caetano Waldrigues Galindo.
Primeiramente, gostaria de enfatizar o quão caprichosa está essa edição brasileira. Os detalhes da capa são lindíssimos e o cuidado com as páginas dos interlúdios (sobre as quais falarei mais adiante) é notável. Por ser um livro bem longo - 1048 páginas - o design do livro faz muita diferença. Se as páginas não fossem confortáveis de ler ou a capa fosse dura, seria praticamente impossível lê-lo em menos de um ou dois meses. Não que o mesmo seja cansativo, mas exige certa dedicação e imersão por parte do leitor.

"...O que me parece é que, basicamente, a gente é um alienígena largado num planeta hostil, com uns habitantes que estão o tempo todo tentando você, pra fazer você confiar neles." (p.267)

O cenário é a cidade de Nova York no final dos anos 70. Mais especificamente na virada de '76 para '77 e daí em diante. No primeiro capítulo somos apresentados a Mercer, o namorado de William (ou Billy III/"três paus"), que está fazendo todo o possível para criar uma atmosfera de Natal agradável para seu companheiro. O problema é que William não parece tão investido nesse feriado quanto Mercer. Este, é um professor de uma escola para meninas, negro, homossexual, vindo de uma cidade pequena. Mercer está buscando fazer parte desse mundo. Tudo que ele parece querer é se encaixar. Em contrapartida, William é um artista punk incompreendido, usuário de drogas, poeta, descendente de uma abastada família. Tudo que ele quer é escapar. Esse é o primeiro choque do livro. O choque de dois mundos, dois desejos diferentes. Duas pessoas que, apesar de juntas, estão há quilômetros de distância de conseguir se entender. Aos poucos, somos apresentados a outros personagens: Charlie, Sam, Keith, Regan, Pulaski, Richard, Jenny, Will. E, através deles, temos o desenho de uma época. Por vários ângulos diferentes. E todos estão, mesmo sem saber, ligados de alguma forma. Os nomes que citei são de personagens que tem capítulos próprios, mesmo que sempre em terceira pessoa. O único momento em que eles tem voz é nos interlúdios, onde podemos ver trechos da fanzine escrita pela Sam, ou a reportagem sobre fogos de artifício do Richard, ou a carta que o pai do William escreveu pra ele.
Esse é um livro longo, porque leva tempo para conhecer alguém. O autor queria que conhecêssemos a cidade de Nova York através dessas vidas. Fictícias e, ainda assim, tão reais.

"E por que amar as coisas se você estava destinado a perder? Por que se permitir sentir se os sentimentos não podiam deixar de morrer? (E numa outra frequência distante: será que era possível que a unidade básica do pensamento humano não fosse a proposição, mas a pergunta? Qual era o conteúdo lógico de uma pergunta?)" (p.503)

Tentei montar um diagrama das relações entre os personagens do livro, mas isso se provou mais complicado do que pensei de início. Quase todos se encontram em algum momento. Todos os caminhos levam a Roma, que no caso de Cidade Em Chamas, é o dia do Blecaute de 77. Ele aconteceu durante o período de 13-14 de Julho e afetou quase toda a Nova York. A história desse livro culmina nesse evento. O autor cria possíveis razões para os incêndios que aconteceram no mesmo período, relacionando-os à especulação imobiliária e gerando um vilão: o homem corporativo. Ele surge no personagem Amory Gould, irmão da madrasta de William. Também é conhecido por grande parte das personagens como Irmão Demoníaco. Realmente, o apelido não poderia ser melhor. Ele faz coisas abomináveis durante toda a história e afeta negativamente todos a sua volta. No entanto, o livro não deixa claro quais seriam suas reais intenções. Ou deixa. Ou eu que não entendi.
Dos pontos que me agradaram na leitura, as referências à música da época, artistas, clubes, foi o que mais me chamou atenção. Tem um capítulo dedicado aos Hell's Angels de NYC que me deixou com vontade de saber mais sobre eles. Além disso, tem uma "conversa" entre a Sam e a voz de Patti Smith na música "Horses" que também ficou muito boa. O retrato da época é, definitivamente, a melhor parte do livro.
O que não me agradou muito foi o final. Para não dar spoilers (afinal, se você resolve enfrentar todas as páginas desse livro, é muito injusto que eu revele o final), pode ter relação com meu gosto pessoal, mas esperava algo mais sombrio. Além disso, a narrativa ficava bem arrastada em alguns momentos, talvez por se repetir demais para tentar fazer com que o leitor "realmente entenda" o que se passa com cada personagem. Acho que isso poderia ter sido resolvido de outra forma, como deixando os capítulos em primeira pessoa. No entanto, talvez tirasse um pouco do impacto dos interlúdios, únicas partes do livro em primeira pessoa. Alguns já adiantam o que vai acontecer no futuro, o que pode tirar o suspense da cena do blecaute. Também achei que havia referências religiosas demais no livro. Em alguns pontos, chegou a ser forçada.

"Escuta, você sabe como um falante de zulu cumprimenta outro falante de zulu?[...] Eu fiquei sabendo disso recentemente, e a coisa me pareceu insanamente linda: a palavra pra oi ou tchau em zulu literalmente significa 'eu estou vendo você'. E a resposta é 'eu estou aqui'." (p.719)

Em suma, o livro me pareceu ser sobre pessoas que se afastam quando querem se aproximar. Pessoas que se perdem, tentando encontrar significado pra vida. Pessoas que vivem numa cidade que ou engole ou cospe você. O livro mostrou uma Nova York feita de pessoas fictícias, mas reais. E, afinal, não somos todos?

Ah! O Netflix vai lançar este mês uma nova série chamada The Get Down, também sobre NY nesse mesmo período. Só que por outro ponto de vista. Recomendo para os que gostaram da leitura de Cidade Em Chamas.



Copyright © 2009 Wild About My Stuff All rights reserved. Theme by Laptop Geek. | Bloggerized by FalconHive.