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12.07.16 - "Em Algum Lugar Nas Estrelas" de Clare Vanderpool

Posted by Stella on 14:54 in
Este livro fala muito sobre ligações, então imagino que a autora não se incomodaria se eu fizesse minhas próprias conexões aqui. Durante a leitura, várias outras obras me vieram a cabeça, desde outros livros a filmes. Em parte, foi isso que me motivou a vir aqui tirar a poeira do blog. Não sei quão boa ou eficiente é essa resenha, no entanto, como falei com uma amiga antes de dar início da leitura deste livro, escrever sobre o que li é uma maneira de organizar meus pensamentos. Ou como Early, personagem do livro, escrever é meu pote de balas de goma.

Primeiramente, Em Algum Lugar Nas Estrelas foi publicado em 2013, nos EUA, pela Delacorte Books for Young Readers e em 2016, no Brasil, pela DarkSide. O livro foi vencedor da Newbery Medal, que premia o autor da mais distinguível contribuição à literatura americana para crianças. Mas não se engane, este não é um livro bobinho. Você pode tirar lições dele independente da sua faixa etária. Claro que pré-adolescentes podem se identificar muito mais com os personagens por estes terem 13 anos, mas quem nunca teve 13 anos?
Lemos aqui um romance de formação: um jovem em crescimento aprendendo a lidar com o mundo a sua volta e terminando por se tornar alguém mais maduro, que reconhece sua posição e a daqueles que o cercam. O protagonista lembra muito Holden Caufield (Apanhador no Campo de Centeio) no caráter. Há momentos em que ele é tão egoísta e egocêntrico que fica difícil simpatizar com o menino. Mas é aí que, na minha opinião, a autora ganha de Salinger. Diferente de Holden, o protagonista de Vanderpool entende que precisa mudar de atitude. Ele não passa o livro inteiro sendo um menino mimado. Ele erra. Muito. Mas também tenta consertar. Ele tenta se tornar alguém melhor e aprender com os outros. Mesmo que, em um primeiro momento, desmereça a opinião do Early por este não preencher os pré-requisitos de alguém que sabe mais que ele. Ele cresce ao longo da narrativa. Ele aprende a abrir sua mente e ver que há mais nas coisas e nas pessoas do que aquilo que elas mostram ao mundo. Vejo Jack como um tipo de Charlie Brown, o every boy da cultura americana. Ele não é especial. Ele não é o melhor em nada. Ele não tem opiniões muito fortes e não sabe vencer um debate. Ele não ganha a corrida. Ele não é nem o verdadeiro protagonista dessa história. Só que quando ele entende isso, tudo muda, ele percebe que é o narrador da história e que seu papel é essencial.
Early Auden é um menino estranho, peculiar, esquisito, diferente (só porque ele precisa dar sinônimos para todo adjetivo que usa... rs).Este é um personagem que aparece pela primeira vez empilhando sacos de areia na praia, como se quisesse conter o mar. Você pode estar pensando: "Ele é bem maluquinho, né?" - E se eu te disser que não? Early vê o mundo pelos olhos de uma criança muito especial. Ele é sinestésico, o que significa que ele pode associar duas ou mais habilidades cognitivas, como a visão e o olfato. Os números tem cheiros e cores para ele. Na série The Librarians, a personagem Cassandra Cillian também é sinestésica e você sente como se isso fosse um tipo de superpoder. Os números são mais tangíveis, eles contam uma história. Isso acontece com algumas pessoas autistas - mas em momento algum a palavra é utilizada no livro. A autora afirma que na época em que se passa a estória, 1945, não se falava muito sobre isso e a maioria dos autistas não eram diagnosticados. Portanto, ela pede que não olhemos para ele como a representação de um menino autista, e sim como um personagem único e brilhante. 
Uma forma de aproximar o leitor do personagem é através do nome. Em inglês, utiliza-se o sufixo -y ou -ie para criar diminutivos. Ao adicionar o -y no final do nome Earl, a autora faz com que fiquemos mais íntimos do personagem. Ela chama atenção pra isso quando o próprio usa desse artifício chamando o narrador de Jackie (ao que ele, surpreso, reage com nervosismo, pois era assim que era tratado pela mãe). Outra função do diminutivo aqui é trazer os personagens de volta a infância que parece estar se perdendo. Quando estamos nessa idade, 13 anos, sentimos a infância ainda muito presente, ao mesmo tempo que há essa urgência em crescer. Sinto que Vanderpool, belamente, nos lembra de voltar a ver o mundo através dos olhos de uma criança antes de continuar a história.
Enfim, voltando ao Early, este possui habilidades admiráveis que impressionam todos a sua volta, especialmente Jack. Este fica embasbacado cada vez que menospreza a capacidade do Early de realizar alguma tarefa por causa de sua condição diferente. Jack demora a entender que, não é porque alguém experimenta o mundo de outra forma que esta pessoa não sabe o que está fazendo. Early sempre sabe o que está fazendo. Mas ele fica feliz em ter alguém com quem compartilhar tudo isso. É graças a ele que a narrativa avança, que o mundo fantástico entra na estória e introduz piratas, vulcões, baleias brancas e ursos falantes. Tudo isso para interpretar o mundo de um jeito mais bonito. Early deixa o mundo mais bonito para o leitor. Outra parte importante dessa narrativa é a trilha sonora. Sim, Early dá ao leitor a possibilidade de experimentar os dias da semana com música. Ele organiza o tempo com som, mesmo quando é só ruído branco. Recomendo ouvir os artistas citados. Pause cada vez que começa a chover no capítulo e ouça Billie Holiday. Quando eles mencionam dias da semana, consulte a listinha do Early e ouça o artista indicado - ou não ouça nada, porque tem dias que não tem música. É uma experiência sensorial, além de deixar o leitor imerso na obra. Minha vontade é levar a trilha sonora do Early pra vida.
Por fim, as estrelas. Na belíssima edição brasileira elas estão em todo lugar: na capa, no início de cada capítulo, entre partes do texto... Isso porque a busca dos personagens é guiada pelas estrelas. Estas tem um papel fundamental em definir o tom, a atmosfera e o humor de cada momento do texto. Sempre que um personagem sente-se muito triste ou perdido, ele não consegue enxergar as estrelas. Sempre que há esperança, ele olha para o céu. Os olhos de uma amada são comparados a duas estrelas. As ligações entre todas as personagens também. A autora metaforiza o céu estrelado para ilustrar que, por mais que estejamos há milhas de distância, ainda fazemos parte de uma mesma constelação. Achei muito tocante a ligação entre Jack e seu pai com as estrelas. É quase impossível evitar aquela imagem do Simba conversando com um Mufasa feito de poeira de estrelas em O Rei Leão.

Todo o livro de Clare Vanderpool tem um caráter muito poético e uma estética muito delicada. Recomendo para todas as almas sensíveis e para aquelas que endureceram com o tempo e precisam lembrar de como era ser criança. O que me lembra muito Oceano No Fim do Caminho, do Neil Gaiman. Early Auden é a Lettie Hempstock de Clare Vanderpool. Ambos guiam o protagonista narrador e deixam o mundo um pouquinho mais mágico.

1 Comments


Stella,

Na infância parece que a vida é mais intensa, estamos antenados em tudo.
Um clássico que li aos 8 anos de idade foi "Charlotte's web", que não achei interessante o suficiente para ser um clássico. Gostei muito mais de "O grande mentecapto", que li 3 vezes, e "A moreninha", que li 2 vezes e já procurei o livro para lê-lo a terceira vez, mas perdi meu exemplar - o título faz crer que seja uma estória ingênua, e é, mas com um estilo único, e um final muito original.

=)
Marcos

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