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21.01.15 - 'In Cold Blood', Truman Capote

Posted by Stella on 09:45 in ,
Começo pedindo desculpas pela demora a postar. Desde o último post já li 4 livros – Sandiliche, Pictures That Tick Vol.1, O Jogo da Amarelinha e Crônica de Uma Morte Anunciada – preciso escrever sobre esses livros, mas ainda não organizei minhas ideias. Além disso, deixei o blog um pouco de lado nas últimas semanas porque está muito quente aqui no Rio de Janeiro pra sentar e escrever. (E eu não tenho ar condicionado, então não me julgue). Ler já foi mais fácil porque eu posso ler no metrô e no trabalho. :B
Depois das leituras que citei acima, li o incrível In Cold Blood do Truman Capote. Acabei de ler faz nem meia hora. Comecei na sexta-feira à tarde e terminei hoje, segunda-feira às 23:30, quando resolvi escrever esse post. Provavelmente você só vai ler isso depois da terça, já que estou sem internet em casa e tenho que esperar até quarta pra postar isso do trabalho. Enfim, o livro é tão bom que me motivou a tomar coragem de sentar nesse calor pra escrever sobre ele.
Trata de uma história real, um assassinato ocorrido em 1959 no Kansas. Uma família de quatro pessoas foi friamente morta e ninguém conseguia descobrir o que aconteceu. Tudo levava a crer que era um crime perfeito. Não havia pistas, motivo, nada que levasse as autoridades até os assassinos. Todo o mistério por volta desse evento levou Truman Capote a se interessar pela história, resultando nesse livro maravilhoso.
O livro se divide em quatro partes: The Last to See Them Alive (Os Últimos a Verem Eles Vivos), Persons Unknown (Pessoas Desconhecidas), The Answer (A Resposta), The Corner (O Canto – mas acho que uma boa tradução pra essa parte seria Encurralados, pelo significado do capítulo mesmo).
A primeira parte vai do início até a página 74 da minha edição (VINTAGE INTERNATIONAL EDITION, JULY 2012). Aqui o leitor é apresentado à família Clutter, as vítimas. A família é constituída por Herbert Clutter, sua esposa, Bonnie, e seus dois filhos, Nancy e Kenyon. O patriarca da família é descrito como um homem sério, porém pacífico e honesto. Ele é um ótimo chefe e muito querido por seus poucos amigos. Poucos porque ele não é exatamente uma pessoa fácil de agradar, é bem seletivo e intolerante com os vícios alheios. Sua esposa, Bonnie, é muito sensível e depressiva. Após ter dado luz a quatro filhos – duas filhas mais velhas, que não moram mais com eles, e os dois mais novos citados acima – ela passou a sofrer depressão pós-parto e ainda não se recuperou bem. É uma mulher um pouco nervosa, mas controlada. Sente-se inútil pelos filhos serem tão independentes dela. A filha, Nancy, é uma jovem perfeita. Ela possui todas as qualidades de uma digna Belle of the South. Sempre cuidando de todos e mostrando-se solicita e atenciosa. Apesar de vários compromissos ao longo do dia, ainda encontra tempo de ter um namorado, Bobby, com quem não vê muito futuro, apesar de gostar muito dele. Kenyon, o filho mais novo, é um rapaz sensível como a mãe e um pouco revoltado. No entanto, parece ser descrito como um bom menino no geral.
Os capítulos sobre a família são intercalados com capítulo sobre os assassinos, Dick e Perry, e como eles estão se preparando para o ataque a casa. Aqui, Capote vai apresentar essas pessoas e suas diferentes personalidades, sendo o primeiro mais impulsivo e convencido. Ele precisa contar vantagem o tempo inteiro, o que demonstra muita insegurança. Insegurança esta percebida pelo segundo, Perry, que demonstra maior sensibilidade e profundidade. Provavelmente a caracterização do Perry Smith se deve ao relacionamento próximo entre ele e Truman Capote. Imagino que isso possa ter influenciado o desenvolvimento maior dele na narrativa.
Toda esta primeira parte serve como contextualização do que virá em seguida e, também, como forma de humanizar todas essas pessoas (inclusive os criminosos). O leitor é mergulhado nesse universo sulista, nos momentos finais dessas vidas. É difícil não sentir certa empatia e pena por todos os envolvidos.
A segunda parte vai da página 75 até 155. Aqui conhecemos o detetive principal do caso, Mr. Dewey e também um pouco mais sobre o passado dos criminosos. Percebemos que da mesma forma que Capote vai construindo o caso, ele vai desconstruindo o emocional tanto do detetive, quanto do Dick e do Perry. Ele faz isso através de pequenos detalhes: escolha dos adjetivos, ordem dos capítulos, momentos que ele decide compartilhar sobre os indivíduos. Enquanto um capítulo mostra a falta de consideração e estrutura do Dick, o outro mostra sua imaturidade e certo grau de “”inocência””. O mesmo acontece com o Perry, o qual é descrito como o tipo de pessoa que chora quando ouve uma bela melodia ou assiste ao pôr-do-sol ao mesmo tempo em que não sente remorso algum em assaltar um loja ou planejar um assassinato.
Dewey tem basicamente o mesmo ponto de vista que o leitor. Ele quer saber o que aconteceu, como aconteceu e porquê aconteceu. Conforme o tempo passa e nada é descoberto, ele vai desenvolvendo um sentimento de impotência muito grande, coisa que também aconteceu comigo durante a leitura. Você sabe o que vai acontecer, que aquelas pessoas vão ser assassinadas, mas você não pode fazer nada a respeito. Ao longo do livro, essa impotência gera um desejo de vingança. Ele quer ver os criminosos pagarem, e assim também quer o leitor. Quanto mais adorável parecem as pessoas da família Clutter, mais você se revolta pelo que foi feito a eles.
Na parte três, que vai da página 157 até 248, temos o capítulo introdutório que já revela, finalmente, para os detetives quem são os assassinos e porquê eles foram para aquela casa especificamente. O delator é um presidiário chamado Floyd Wells, que esteve encarcerado junto ao Dick e que comentou com ele sobre esse fazendeiro muito rico no Kansas pra quem ele já trabalhou. Dick fica interessado e começa a fazer várias perguntas sobre a propriedade e a família. Floyd diz que deve ter um cofre na casa e Dick decide, então, ir até lá assim que conseguir a liberdade condicional. Neste momento, ele diz para Floyd que vai assaltar o cofre e não irá deixar testemunhas. Para tanto, ele entra em contato com um ex-companheiro de cela, Perry, que já está em liberdade condicional e avisa que tem um plano “de matar”.
O problema é que não havia cofre algum na casa. E, de acordo com os relatos dos vizinhos, também não havia dinheiro, já que Mr. Clutter não tinha o hábito de usar dinheiro vivo, apenas cheques. Então nessa parte é que começa realmente a busca pelos assassinos para tentar apreendê-los, conseguir uma confissão e, finalmente, o relato do que realmente se passou na casa. Isso não é fácil e leva bastante tempo.
Quando Perry e Dick são presos, ficamos sabendo do que aconteceu e eu realmente não queria dar spoilers do que acontece aqui e de como o leitor descobre o que aconteceu na casa, porque é o grande clímax do livro e acredito que saber como isso acontece quebra o ritmo e o impacto da cena. Basta dizer que é muito chocante e que o título passou a fazer muito sentido depois disso. É de uma frieza e desligamento impressionantes.
A parte final vai da página 249 até 343, onde termina o livro. Aqui acontece o julgamento, que me remeteu muito ao The Crucible, já que não existe defesa real, a comunidade já os condenou à forca (literalmente) e levá-los ao júri popular foi um teatro para agradar a sede de sangue da multidão. Não estou querendo dizer que eles não fossem culpados, eles confessaram o crime. Mas que aqui começa outra discussão: pena de morte, não seria isso também um crime? Os assassinos não recebem em momento algum o direito à prisão perpétua, isso porque seria fazer com que o dinheiro dos impostos estivesse sendo gasto com esses criminosos irrecuperáveis. O problema todo é que eles estão sendo condenados porque tiraram uma vida pensando só no dinheiro, mas tirar a vida deles por causa de impostos, não seria a mesma coisa? Não seria isso ter também “sangue frio”? Claro que não num mesmo grau, mas é algo a se pensar.
O livro termina com o detetive, Dewey, assistindo a execução dos assassinos e dizendo que ele pensou que este seria o clímax da história, que haveria algum tipo de gratificação pessoal. No entanto, tudo que resta é uma sensação de culpa (as mãos dele estão manchadas de tinta e achei uma ótima referência à ideia de que as mãos dele também estão “sujas”, ele também é responsável por tirar uma vida).
Este é um livro sensacional. A escrita do Capote, por mais que com um teor jornalístico muito presente, é absurdamente fluida. Ele narra os acontecimentos de uma forma bem envolvente e bem construída. Recomendo muito! 5 estrelas!

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