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29.12.14 - 'Haunted' do Chuck Palahniuk

Posted by Stella on 00:23 in , ,

Como eu acabei de descrever pro Gabriel, este livro é como aquela carne que tem um gosto bom, mas veio cheia de nervos e você não consegue engolir porque é nojento. Foi a melhor descrição que achei pro livro. Haunted (Assombro, no Brasil) foi escrito em 2005 por Chuck Palahniuk e tem 412 páginas repletas de sangue, tripas, pedaços de corpos, gosma e sexo.
O objetivo do autor era criar histórias de horror com elementos cotidianos, sem aquela coisa mágica e fantástica. Então tudo que pensamos ou entendemos ser fantástico no livro, acaba sendo uma ilusão. Um truque de mágica. (Irônico que a primeira coisa que vem à mente quando penso na ausência de mágica são os truques de mágica...)

A narrativa é separada em três partes: a história principal, poemas sobre os personagens desta história, e contos narrados pelos personagens da história principal.
Então vou começar falando sobre a narrativa maior. Ela acontece ao redor de 20 personagens que foram para um retiro de escritores. Um deles é o organizador, Mr. Whittier que avisa a todos que eles ficarão 3 meses completamente isolados do universo para focar no trabalho. A ideia é que sem as distrações da vida cotidiana, eles poderiam finalmente criar a obra-prima que sempre sonharam. Muito interessante, né? Só que ninguém é normal nesse lugar, a começar pelo próprio organizador, mas acredito que falar muito sobre ele é dar spoiler, então irei me conter. Os outros personagens não tem nomes, mas codinomes pelos quais são tratados o tempo inteiro. (O Mr. Whittier se chama Brandon Whittier) Todos têm algum podre escondido, que vai sendo descoberto aos poucos, conforme contam suas histórias. E Palahniuk já começa pegando pesado e nivelando os leitores. Ele não quer que qualquer um leia esse livro, para tanto, ele coloca o escabroso conto "Guts" logo no início. É sobre esse rapaz que tem uma necessidade muito grande de se masturbar de maneiras bem... exóticas. E ele sempre acaba se dando muito mal. Não consigo descrever mais do que isso, porque é o conto mais nojento do livro. Não, não é nojento pela parte da masturbação, isso é okay, a parte nojenta é como ele faz isso e o que acontece quando ele faz isso. Como diz o aviso na capa: "Leia por sua conta e risco!"
Falando sobre os contos, eles são narrados por cada um dos 20 personagens, incluindo o Mr. Whittier, alguns repetindo o narrador. Eles se intercalam com a narrativa principal e sempre que uma nova personagem vai contar a história, ela é introduzida por um poema. Tiveram alguns poemas que eu gostei mais que outros, por exemplo o que introduz o Matchmaker:

The Consultant 
A Poem About the Matchmaker 
“If you love something,” says the Matchmaker, “set it free.” 
Just don’t be surprised if it comes back with herpes . . . 
The Matchmaker onstage, he slouches with his hands stuffed deep 
in the pockets of his bib overalls. 
His boots crusted with dried horse shit. 
His shirt, plaid. Flannel. With pearl snaps instead of buttons. 
Onstage, instead of a spotlight, a movie fragment: 
of wedding videos where brides and grooms trade rings 
and kiss to run outside to blizzards of white rice. 
All this trickles across his face, the Matchmaker’s bottom lip stretched to pocket a chaw 
of chewing tobacco. 
The Matchmaker says, “The girl I loved, she thought she could do better.” 
This girl, she wanted a taller man, with a deep tan, long hair, and a bigger dick. 
Who could play the guitar. 
So she said “no” when he’d first kneeled down to propose. 
So, the Matchmaker hired a whore named Steed, a male prostitute who advertised: 
Long hair and a dick as thick as a can of chili. And who could learn 
to play a few chords. 
And Steed pretended to meet her by accident, at church. Then, again, at the library. 
The Matchmaker paying two hundred dollars per date, 
and taking notes as the whore told him how much the girl liked her nipples 
played with from behind. And how best to make her come two or three times. 
Steed sent her roses. He sang songs. Steed fucked her in back seats and hot tubs, 
where he swore eternal love and devotion. 
Then didn’t call her for a week. Two weeks. A month. 
Until he pretended to meet her by accident, at church again. 
There, Steed said they were finished—because she was too slutty. Almost a whore. 
“I swear,” the Matchmaker says, “he called her a whore. The nerve of that guy . . .” 
God bless him. 
All of this, the Matchmaker’s secret plan to give his girlfriend 
a premature, accelerated broken heart. Then catch her on the rebound. 
His last meeting with Steed, he paid an extra fifty bucks for a blow job. 
Steed kneeling there, at work between his knees. 
This way, when his future wife had her well-researched, multiple orgasms, 
the man in her head would not be a total stranger to her husband, 
the Matchmaker. 

Como começar a descrever as coisas que passaram pela minha cabeça depois de ler esse poema? Primeiro, "Matchmaker"! Que codinome genial. Segundo, que filho da puta. Terceiro, eu não sei o que dizer sobre esse poema. Achei tudo bizarramente genial. Toda aquela ideia da vingança como um prato que se come frio, sabe?
Dos contos, os que eu mais gostei foram: "The Nightmare Box" e "Evil Spirits". Indo de encontro a premissa do livro - que é serem histórias de horror sem aquela atmosfera fantástica - o primeiro é sobre uma caixa que foi encontrada numa loja de antiguidades. Esta caixa é muito peculiar, soa tic-tac como um relógio e contém um olho mágico estrategicamente posicionado para que você só possa olhar com o olho esquerdo - e interpretar com o lado direito do cérebro. Quando você olha durante o tic-tac, nada acontece. Mas quando o tic-tac pára... acontece o título do conto. Me lembrou muito algumas das histórias do Lovecraft. É um terror psicológico bem interessante e dá pra ler em 15 minutos. O segundo é sobre uma menina que contraiu um vírus mortal que causa câncer cerebral em pessoas que entram em contato com ela. Só que, por algum motivo, ela é imune ao vírus. O que as autoridades resolvem fazer a respeito? Prendê-la num tipo de sala de contenção o resto da vida. Esse é um resumo bem superficial, mas a história é boa e daria um bom filme...
As histórias mais bizarras na minha opinião foram "Guts" (que já falei acima) e "Exodus", que envolve sex dolls com aparência de crianças. Então dá pra imaginar o nível de doença mental desse conto. Não consigo contar mais que isso. 
Última página do epílogo. Fantástica.
A melhor parte disparada do livro é o epílogo. Depois de passar dias lendo bem devagar, para conseguir engolir os nervos, Palahniuk vem e me faz concordar com ele que o livro não é assim tão bizarro. O mundo é bem pior do que julga nossa vã filosofia, né? Ele tira sua inspiração de relatos reais. Ele dá um tapa na cara do leitor ingênuo - como eu - e fala tudo que eu sempre quis dizer mas nunca soube como expressar quando se trata de livros. Ele diz que os livros têm o poder de fazer com que você - e só você - passe por aquela porta. Não é como num filme, em que você pode fechar os olhos ou pedir pra alguém segurar sua mão. Num livro, você precisa estar aberto a tudo que vai acontecer e você está sozinho. Parafraseando o autor, ele diz que um livro é tão particular e consensual quanto o sexo. Ele exige tempo e esforço para ser consumido. E você pode largar tudo no meio a hora que você quiser. Terminar um livro é uma escolha. Além disso, os livros vêm com uma liberdade que nenhuma outra media de massa tem. Eles são um mundo onde você pode entrar no seu ritmo, imaginar a sua maneira. Nenhum livro é igual, mesmo sendo o mesmo livro. Será que dá pra entender? E para o escritor, isso é ainda mais intenso.
Só sei que no final saí dessa churrascaria elogiando a cozinha. Eu esqueci os nervos, esqueci que levei horas mastigando e simplesmente abracei a suculência da carne. 4 estrelas.


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