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19.12.14 - Dois em Um: Zevin e Murakami

Posted by Stella on 22:21 in , ,
De ontem pra hoje li dois livros e, coincidentemente, os dois se passam em lugares onde pegamos livros - livraria e biblioteca. Então nada mais justo que colocá-los no mesmo post, comparando as duas abordagens. Ambos foram publicados no ocidente este ano, mas o segundo foi publicado no Japão em 2005.
O que li primeiro foi A Vida do Livreiro A. J. Fikry de Gabrielle Zevin. Este livro se passa em um lugar chamado Alice Island, em uma livraria chamada Island Books. Como o próprio título diz, vai contar a história deste homem chamado A. J. que é o dono desta livraria. Ele é uma pessoa extremamente exigente, especialmente quando se trata dos livros que vão para suas prateleiras, e difícil. O personagem é muito mal-humorado e soa muito mais velho do que realmente é. Acredito que ele tem uns 40 anos, mas até uma parte do livro eu achava que ele tinha bem mais. Bem, o livro começa apresentando sua correspondente amorosa na história, Amelia. Ela me lembrou muito as personagens feitas pela Zooey Deschanel - bonitinha, fofinha, alegrinha, espertinha e todos esses "inhas" - e, é claro, ele se apaixona por ela, mas não tenta nada até 4 anos depois por vários motivos: sua esposa havia falecido há pouco tempo e ele ainda estava de luto, ele foi muito rude com ela na primeira vez que se viram, ele não sabe como agir porque é aquele estereótipo de nerd de livraria e etc. Além desta trama, também tem a outra personagem, Maya, que é uma menina que foi abandonada em sua livraria pela mãe, que gostaria que a filha fosse criada em meio aos livros. A menina vai para lá aos 2 anos e A.J. resolve adotá-la. Ela é perfeita pra ele, porque adora livros, mesmo sem saber o que está escrito neles. Fala e entende coisas que não parecem ser muito comuns para sua pouca idade, mas enfim. Em linhas gerais, é isso aí. O livro é bem curto, tem 186 páginas, e por mais que a autora tente desenvolver uma trama para história, achei que foi bobo.


Agora é aquela parte em que eu explico porquê achei o livro bobo: desde o início da história já dá pra sacar tudo que vai acontecer. É um livro óbvio, pela descrição das personagens, pela presunção das conversas, que tentam passar uma mensagem de forma implícita, mas que acabam sendo arquétipos de conversas que já vimos em filme do Woody Allen, por exemplo. O livro faz várias referências a outros livros, só que usa como influência apenas aquelas que se referem a literatura Young Adult (YA). Ele inclusive cita um livro que já comentei aqui no blog chamado What We Talk About When We Talk About Love, e é impossível não comparar as conversas, que tem profundidades completamente diferentes. No conto de mesmo nome do Raymond Carver, conseguimos ver a evolução dos personagens dentro de um período muito curto de tempo, assim como acontece com nossas emoções, que não são estáveis, não somos pessoas assim tão óbvias, mudamos de opinião e nosso julgamento é afetado pelas reações dos outros. No livro de Zevin as conversas costumam pender para um dos lados, que está sempre certo, e focam muito no que os personagens estão pensando sobre essas conversas em vez de focar nas conversas em si. Ou seja, elas acabam ficando vazias, parecendo conversa de elevador. E as transições são bem ruins também. Dois personagens estão andando na rua conversando, um não vai com a cara do outro, os dois levantam da cama e se vestem. Como assim? Eu, como leitora, quero saber o que aconteceu no meio disso. Em alguns casos, como em filmes, dá pra ver os olhares, saber o que levou essas pessoas até ali, mas num livro, preciso de algo mais.
Outro ponto desagradável do livro foi a revisão. Li a tradução feita pela editora Paralela e fiquei horrorizada com os erros de tradução e, consequentemente revisão, já que é responsabilidade do revisor encontrar estes erros. Marquei os mais absurdos, mas houve mais, pode ter certeza. Um desses erros foi o seguinte: "Ela vesta uma blusa decotada e um sutiã push-up, que ergue uma pequena e deprimente prateleira onde pousa um pingente com seu nome." Prateleira? Imagino que ela quis dizer "saboneteira", certo? E, mesmo assim, o uso do verbo "erguer" nesta frase deixa tudo muito esquisito. Tive que reler a frase algumas vezes pra ter certeza de que eu entendi do que ela estava falando. Outro exemplo foi na frase "A sacola ecológica que traz no ombro contém muitos acréscimos..." Gente, fala sério, sacola ecológica? Não era mais simples escrever Ecobag? Ninguém fala "vou ali com a minha sacola ecológica". Não soa natural. Pra um livro que escreve coisas como "tantin" pra se referir a "um tantinho", acho que não precisava dessa formalidade toda.

O outro livro que li hoje e comprei com um vale presente que ganhei de um aluno () é The Strange Library escrito por Haruki Murakami (que também escreveu 1Q84, um romance distópico que tenho aqui e ainda preciso ler). Este é bem mais curto que o anterior, tem apenas 96 páginas, então acredito que pode ser chamado de novela. Ele foca na história de um personagem do início ao fim e o conflito se resolve rápido, apesar da densidade da história.
Este livro vai acompanhar três dias na vida de um menino anônimo que vai até uma biblioteca devolver dois livros - Como Construir Um Submarino e Memórias de um Pastor de Ovelhas (tradução livre dos títulos) - e procurar outro. Chegando lá, mandam ele para uma sala númerada 107, onde há um velho. O personagem é muito caricato e mandão, me lembrou muito o Kamaji (imagem ao lado) de A Viagem de Chihiro, só que mais malvado. E a partir daí coisas estranhas acontecem e eu não quero dar spoiler. Como já disse, é um livro muito breve, então é complicado falar sobre a trama sem acabar entregando a graça do enredo. No entanto, posso dizer que há um tipo de realismo mágico que só os japoneses conseguem fazer. Se você já assistiu o filme que citei, sabe do que estou falando. É um livro infantil, mas sinistro, principalmente o final. Não tem aquele tipo de final feliz que estamos acostumados em livros que parecem ser para crianças. Acho que se eu fosse mais nova e tivesse acabo de ler isso, nunca mais entraria numa biblioteca. Ainda bem que isso não aconteceu! Esse final é bem perturbador, porque o leitor fica sem saber direito como se sentir.
Gostei muito mais desse em comparação. Mas acho que isso também pode ter a ver com os diferentes estilos dos autores. A primeira parece tender para um tipo de chick-lit, enquanto o segundo parece almejar algo mais próximo do suspense psicológico. Depende do tipo de leitor que você é: se prefere algo mais simples de digerir e não é muito exigente quando se trata de texto, o primeiro é um bom passatempo. Indicaria para minha avó, por exemplo. Se gosta de algo envolvendo o supernatural e curte os perturbadores filmes e livros japoneses, recomendo muito Murakami.

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