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24.08.14 - Resenha: "The Bell Jar" by Sylvia Plath

Posted by Stella on 23:55 in , ,

"The Bell Jar" foi escrito anos depois de um verão bastante perturbador para Plath, quando esta já estava casada e com filhos. No entanto, a história tem caráter autobiográfico tão inegável que a própria admitiu ser este "um aprendizado autobiográfico o qual precisava fazer para me ver livre do passado." (tradução livre. p.12 do Apêndice)

A personagem é uma menina brilhante de 19 anos que acabou de receber uma bolsa mais um estágio em uma grande revista em Nova York (assim como aconteceu à Plath), nesse ínterim ela vai a desfiles, festas e uma variedade de eventos aonde também apresenta diversas personagens bastante caricatas, como sua amiga Doreen e o "namorado" Buddy. Apesar de interessante no início do livro, Doreen some depois de alguns capítulos perdendo aos poucos sua relevância para a narrativa e à protagonista. É muito interessante ver como depois que Doreen cede aos encantos de um disc jóquei, ela é bastante julgada pela protagonista, mesmo que não abertamente. Sobre isso, os comentários e digressões feitos pela narradora são a melhor parte da história. Diferente de "Catcher in the Rye" - que muitos comparam com "The Bell Jar" - Esther é uma mulher divertida, sarcástica e tão interessante que até os momentos mais mórbidos e depressivos da história ficam leves e gostosos de ler. Plath derrama poesia na prosa e transforma um assunto denso, dramático e pessoal em algo que o leitor não consegue parar de ler. O outro personagem bem relevante é o Buddy Willard, que é bastante julgado pela protagonista no início da história e realmente parece um bobão (na falta de um adjetivo melhor), mas que após o amadurecimento da personagem, percebemos quase junto dela que ele também tem a sua redoma de vidro. Fato que ela percebe sobre todos os outros aos quais ela atribuía seu desespero e consequente internação.
Apesar de abordar o tema da depressão e de mostrar o quão isolada pode se sentir uma pessoa que sofre dessa doença, o livro contém partes bastante engraçadas e, por vezes, me peguei rindo de um ou outro comentário dela. Para encerrar, comento abaixo sobre alguns dos meus trechos favoritos:

"Doreen wasn't saying a word, she only toyed with her cork placemat and eventually lit a cigarette, but the man didn't seem to mind. He kept staring at her the way people stare at the great white macaw in the zoo, waiting for it to say something human." (p.11)

[Nesta cena, Esther está em um bar assistindo Doreen flertar com o Lenny Shepherd fazendo o papel da moça burra, o que é totalmente contrário à primeira impressão que temos da Doreen. Coisa que também parece impressionar a Esther. A associação que ela faz entre a Doreen e uma arara branca no zoológico é hilária.]

"I stared at Buddy while he unzipped his chino pants and took them off ad laid them on a chair and then took off his underpants that were made of something like nylon fishnet.
'They're cool,' he explained, 'and my mother says they wash easily.'
Then he just stood there in front of me and I kept on staring at him. The only thing I could think of was turkey neck and turkey gizzards and I felt very depressed." (p.69)

[Eu simplesmente adorei essa cena. Buddy está tentando avanços sexuais com Esther, que apesar de não agir como uma prude e permitir sem hesitação que Buddy tire suas roupas, ela não consegue sentir nenhum tipo de atração por ele. Tudo o que ela consegue imaginar é pescoço e moela de peru. Tanto que depois dessa Buddy ainda tentou convencer ela de "deixei você ver o meu, agora me mostra o seu" e Esther recusa o convite bem rápido.]

"My mother smiled. 'I knew my baby wasn't like that.'
I looked at her. 'Like what?'
'Like those awful people. Those awful dead people at that hospital.' She paused. 'I knew you'd decide to be all right again.'" (p.146)

[Não sei nem descrever a raiva que senti da mãe da Esther neste momento. Ela acabou de ser liberada do hospital após uma sessão traumática de eletrochoque e a ideia de carinho materno que sua mãe tem é dizer "que bom que você decidiu ficar boa de novo!", como se ela tivesse DECIDIDO passar por isso. A autora parece discutir exatamente o problema de tratar depressão como tratavam histeria. Dizer que isso é coisa de mulher que precisava levar umas sacudidas pra parar de frescura. E ela coloca esse ponto de vista não só nos personagens masculinos, mas também nos femininos.]

"If Mrs. Guinea had given me a ticket to Europe, or a round-the-world cruise, it wouldn't have made one scrap of difference to me, because wherever I sat - on the deck of a ship or at a street café in Paris or Bangkok - I would be sitting under the same glass bell jar, stewing in my own sour air." (p.185)

[Esta é a primeira passagem em que ela cita a campanula de vidro que dá nome ao título. No entanto, na versão em português, foi traduzido como redoma de vidro, imagino que para ficar mais claro e acessível o significado dela no texto. Pois bem, ela acabou de receber a notícia de que uma senhora muito abastada havia lido sobre o caso dela nos jornais e resolveu ajudá-la. Para tanto, ela arranjou a transferência de Esther do hospital assustador onde ela estava para um outro muito mais caro e cheio de regalias, coisa que para ela não faz - ainda - tanta diferença, já que onde quer que ela esteja, também estará esse muro dividindo ela de tudo a sua volta. No entanto, é neste hospital que ela conhece a Doutora Nolan, que é uma personagem pela qual eu não sei o que sentir. A Esther é simplesmente apaixonada por ela, a qual toma uma posição um tanto quanto maternal em relação a ela, ou talvez daquela tia que te leva pra passear.]

"A bad dream. To the person in the bell jar, blank and stopped as a dead baby, the world itself is the bad dream." (p.237)

[Esse é um pensamento já pro final, quando a Esther está aparentemente recuperada. Acho que resume bem o que foi toda essa experiência não só para a personagem na ficção como também para a autora na vida real. É uma passagem linda e poética. A imagem que vem com essa afirmativa é tão forte e, ao mesmo tempo, tão delicada que não tem como não descrever como 'poesia'.]


"The Bell Jar" é isso. Poesia em forma de prosa.

[Também publiquei esta resenha no Skoob:
http://www.skoob.com.br/livro/resenhas/64928
]

2 Comments


Stella,

É capaz desse livro virar filme, conforme senti pelo que tu escreveste.

:)
Marcos


Bem que podia mesmo, hein!
Mas já se passaram uns 50 anos desde que foi escrito. De repente até tem filme, só não acho que seja blockbuster. rs

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