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21.06.13 - A mudança

Posted by Stella on 12:54 in
Lore se mudou para esta antiga casa na rua principal da Vila Yonen. Ela havia acabado de se formar na universidade e buscava mais independência. Durante todo o tempo de faculdade, Lore esteve à sombra dos pais, que pagavam tudo – comida, transporte, material – e estavam sempre presentes para cobrar bons resultados pelos seus investimentos. Desta vez, ela queria ser a única responsável pelo seu sucesso, ou fracasso. Morar sozinha era parte deste plano.
Ela se mudou pra essa vila porque parecia razoável que um novo começo envolvesse algum lugar distante da civilização que ela conhecia. Um lugar onde as pessoas usam mais bicicletas que carros e onde boatos estranhos e fantásticos se espalhavam. Para conseguir dinheiro pra ir morar neste pacato local, Lore trabalhou muito durante todo o último semestre e conseguiu juntar uma boa quantia. As despesas mensais ficaram por conta da bolsa de mestrado que ela havia acabado de adquirir. Tudo parecia correr de acordo com o plano. Tudo estava bem.
A primeira atitude que tomou quando entrou na casa foi jogar várias coisas fora. O proprietário que lhe vendeu a casa disse que ela podia fazê-lo, pois tudo que ficou pra trás estava exatamente onde deveria estar: no passado. Então ela fez uma faxina geral que durou quase três dias. Nesse meio tempo, ela percebeu que não estava sozinha na casa, parecia que já havia outro inquilino. Um gatinho preto de olhos verdes vivos e atentos. Ele não incomodou Lore na faxina. Apenas assistia a tudo e, de vez em quando, pulava em cima de algum dos móveis, mas era prontamente enxotado para que ela pudesse removê-los e atirá-los na entrada principal, que mais parecia um ferro velho. Pelo menos ficou assim até que vieram coletar o lixo e as velharias da casa antiga.

Depois de tudo arrumado, organizado e devidamente descartado. Lore preparou um chá e sentou-se ao lado do abajur para ler um pouco do material para sua dissertação. Após alguns minutos ela foi distraída por uma sombra estranha no livro. Rapidamente olhou para trás e percebeu que o gatinho preto estava apoiado em cima da poltrona, como se espiasse o que ela estava fazendo. Loucura! Gatos não sabem ler e nem possuem discernimento. Provavelmente ele estava se acostumando a ela. Esse pensamento a deixou um pouco agitada, pois ter um bichinho de estimação não fazia parte dos seus planos. Isso seria mais um custo. Ela precisava se livrar do gato.
No dia seguinte, Lore ligou para uma associação de animais e pediu que alguém viesse resgatar um gatinho perdido que havia aparecido em sua casa. Ela explicou que não teria como manter o animal e marcou um horário para que passassem lá para buscá-lo. Enquanto falava ao telefone, o gatinho apenas assistia. Olhava para ela com interesse e um olhar estranhamente atento. Quando o pessoal da associação chegou para buscá-lo, Lore não parecia encontrá-lo em lugar algum. Eles vasculharam a casa toda e os arredores, mas o bichano havia simplesmente desaparecido. Eles concluíram que o gatinho provavelmente voltou para a própria casa ou saiu em busca de outras aventuras. Gatos fazem essas coisas. Lore não ficou muito contente, mas pelo menos se viu livre do gatinho preto de olhos verdes.
Antes de dormir, ela estava trocando de roupa de frente ao espelho, reparando em todos os mínimos defeitos em seu corpo, como a maioria das mulheres fazem em frente ao espelho. Ela estava considerando começar uma dieta no dia seguinte quando teve um sobressalto. O gatinho estava sentado em cima da cama. Assim, simplesmente sentado e encarando Lore, como que para uma conversa séria. Ela não conseguiu ter outra reação a não ser soltar um grito, que nem por um segundo alarmou o gatinho. Seus olhos verdes estavam ainda mais brilhantes diante da luz indireta que havia no quarto. Ela tentou correr pra fora, mas o gatinho deu um salto da cama em direção a porta e bloqueou sua saída. Parecia que ele a pegou numa armadilha. Ela sentia-se como um rato, encurralada, amedrontada. De repente ela acordou como que de um transe e lembrou que ela era maior que o gato, que não havia sentido em temê-lo. Então deu dois passos para o lado e sentou de costas para a penteadeira, aguardando a próxima estripulia do gatinho preto. O que ela estava esperando, ela não fazia ideia, mas definitivamente não era o que aconteceu a seguir.
O gatinho preto de olhos verdes sentou novamente e, olhando fixamente para Lore, “disse”, “O que eu fiz para você?”, não é como se ele estivesse movendo os lábios ou coisa parecida. Ele não fez movimento algum, mas ela conseguia ouvir uma voz falando isso para ela. Ficou sem reação. Só conseguiu pensar, “puta que pariu, eu fiquei louca”. Pensamento para o qual ela obteve uma resposta, “talvez. Porque eu não fiz nada que justificasse o seu comportamento. Talvez você seja louca”. Lore tentou refletir os últimos acontecimento e chegou a conclusão de que isto só poderia ser um sonho. Claro que era um sonho, porque se não fosse isso significaria que ela estava se comunicando telepaticamente com um gato. E isso é o tipo de coisa que leva as pessoas ao manicômio. Como isso era um sonho, Lore resolveu levar a história adiante. Pensou na seguinte frase, “você está zangado comigo pelo que afinal?”. O gato inclinou a cabeça ligeiramente para a esquerda e respondeu, “Como assim? Você invadiu minha casa, destruiu minha propriedade e tentou me remover a força sem nem ao menos me consultar. E ainda tem a audácia de perguntar o que VOCÊ fez?” Lore arregalou os olhos com surpresa, isso só podia ser uma brincadeira do seu cérebro. Talvez ela estivesse se sentindo culpada por ter ligado pra associação de animais. “Sua casa? Eu comprei esta casa e o dono me disse que eu poderia jogar o que estivesse aqui fora. Inclusive, ele não mencionou animais na casa. Então posso concluir que você também não morava aqui”. O gato se mexeu como que tentando se ajeitar ou se conter, e disse, “pois bem. Você está me expulsando da minha própria casa. Então que assim seja. Boa sorte”. Lore pensou em rir. Talvez o gato tenha escutado esse pensamento também, mas ela não teve certeza. Ele saiu pela janela e parecia que, desta vez, era pra valer. Ela deu um suspiro de alívio e deitou na cama pensando, “agora é aquele momento em que eu acordo sobressaltada e descubro que tudo isso foi um sonho”. Bem, ela não acordou sobressaltada, não naquela hora.
Na manhã seguinte, Lore acordou nervosa, com uma sensação estranha. Toda a casa parecia mais fria, como se um vento gelado corresse pelos corredores e invadisse os cômodos uivando, sussurrando coisas. Ela sentiu um arrepio, mas concluiu que provavelmente era só o tempo virando, fez sol durante vários dias. Fazia sentido que finalmente fizesse um pouco de frio. No entanto, quando olhou pela janela, viu que lá fora fazia sol, nem uma nuvem espreitava no céu. Então porquê aqui fazia tanto frio? Ela só conseguia se lembrar do gatinho preto desejando boa sorte e saindo pela janela. Esse pensamento fez com que sentisse um novo arrepio, então decidiu descer para tomar um chá, ou café, ou qualquer coisa quente.
Quando desceu as escadas, tomou um susto ao ouvir o barulho do telefone. Este não havia tocado desde que ela se mudou, e nas atuais circunstâncias, qualquer som novo seria assustador. Ela pegou o telefone e era sua mãe, “Lorena, você está bem? Se mudou já faz quase uma semana e até agora não nos deu informações! Seu pai e eu estamos tendo um ataque aqui!”. Ela respirou fundo e respondeu, “Tá tudo bem, mãe. Eu não liguei porque estava muito ocupada com a mudança, faxina, estudos... não precisa fica nervosa.” Ao que sua mãe disse, “Ok, mas custava ter ligado? Bem, só queria saber se estava tudo bem. Vamos te visitar na semana que vem, então faça o favor de avisar caso resolva sair de casa. Beijos” e antes que Lore pudesse responder, sua mãe desligou o telefone. Provavelmente ela estava mais zangada do que parecia, e olha que ela já parecia bem zangada. Lore andou até cozinha ainda com os pensamentos na sua mãe quando quase caiu pra trás diante do que viu. Os vidros estavam quebrados, a geladeira saqueada... isso não fazia sentido. Quem iria invadir uma casa pra roubar comida e ir embora? Não levaram nenhum eletrodoméstico, nada. Ela abriu a geladeira e tudo que pensou ter sido saqueado, na verdade estava apenas espalhado pelo chão da cozinha. Ou seja, não foi nem pra roubar comida. Quando parou pra analisar, isso parecia ser pior. Alguém quebrou a cozinha simplesmente por quebrar. Na mesma hora ela voltou pra sala e ligou para a polícia local. Eles vieram em menos de 15 minutos. Dois homens chegaram numa viatura simples e enquanto um deles anotava tudo que via destruído na cozinha o outro tentava coletar o depoimento da vítima, isto é, de Lore. Ela disse que não ouviu absolutamente nada, que provavelmente estava dormindo muito profundamente que até sonhou, o que não é tão comum pra ela. Disse que quando acordou já estava tudo assim, que ela olhou tudo e que nada foi saqueado, só destruído. E aí o policial perguntou quem poderia lhe querer mal, ao que Lore quase se pegou respondendo, “o gato preto...”, mas conseguiu se controlar antes que dissesse qualquer coisa estúpida. “Não sei, me mudei há pouco tempo. Não conheço os vizinhos. Existe algum grupo de vândalos que pode querer me assustar ou coisa assim?” – “Não que eu saiba, senhora. Mas vamos patrulhar a casa durante a noite pra ver se encontramos alguém. Nos mantenha informados caso algo assim volte a acontecer.” Isso não deixou Lore muito mais calma, mas saber que teria segurança durante pelo menos esta noite pareceu reconfortante. Antes de sair, um dos policiais disse para o outro, “Não é estranho como aqui dentro está tão frio e lá fora tão quente? Será que ela tem algum tipo de ar central? Devíamos arrumar um desses pra delegacia.” O outro policial riu e olhou para Lore esperando uma resposta. Ela, um pouco desconcertada, apenas respondeu, “Não. Sem ar condicionados aqui.” Os policiais pareceram um pouco surpresos, mas foram embora mesmo assim.

Lore não conseguia pensar em nada. Isso não fazia sentido. Durante os três dias seguintes, sua casa foi repetidamente destruída por forças sobrenaturais, porque nem ela, nem os policiais sabiam explicar como isso poderia estar acontecendo mesmo com a patrulha. Ninguém entrou ou saiu da casa durante as depredações. Na quarta manhã, Lore já estava exausta. Era como se algo estivesse sugando toda sua energia e, no caminho, destruindo sua casa, seus planos... e aí caiu a ficha. “Boa sorte. O gato falou BOA SORTE. Ele sabe de alguma coisa!” Nesse ponto ela não sabia mais se estava louca ou o que, mas saiu atrás do gatinho preto de olhos verdes. Após andar uns bons quarteirões, ela desistiu da busca e voltou pra casa. E foi aí que ela viu o gatinho sentado na entrada principal. Olhando pra ela. Lore não sabia o que fazer, então fez o que achou mais sensato naquele momento. Abriu a porta e deixou o gatinho entrar. Ele olhou para toda a bagunça e achou um espaço no meio da sala, onde deitou e se deixou ficar até o dia seguinte. Enquanto o gato dormia, Lore arrumou a casa e repôs os vidros quebrados. À noite, tudo parecia mais calmo, mas estável. A casa não parecia tão fria e ela se lembrou de que seus pais viriam no dia seguinte. Decidiu deixar algo pré-cozido pro almoço antes de dormir. Após terminar na cozinha, colocou um pratinho com alguns legumes cozidos próximo ao gato, que levantou a cabeça e fixou seus olhos verdes brilhantes, desta vez menos desafiadores. 
Lore subiu  as escadas e naquela noite ela dormiu e sonhou com gatos falantes que protegem lugares de forças sobrenaturais e que têm um gosto peculiar para comida, que não inclui legumes cozidos.

4 Comments


Muito bom! Tem talento. =D


Muito interessante, garota. Tem boas referências . Bjo sumida


Stella,

Criou-se o suspense com eficácia, o estilo é fluente, e a concatenação de ideias junto com a ortografia estão impecáveis, claro, vc é professora.

=D
Marcos


hehehehe... o gatinho preto, além de rogar praga, também tem um paladar exigente. :)

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