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16.12.09 - Dos meus amores...

Posted by Stella on 20:12 in

Como eu já perdi o concurso mesmo... Tinha escrito esse conto pra concorrer num concurso da UFF, mas perdi... Então, tá aí o texto pra vocês lerem e darem opinião... :) O tema era "Um dia, uma noite, Paris." Enfim... espero que gostem. :)

Dos meus amores...

O dia estava frio, mas a sensação era prazerosa. Só quem já esteve em Paris sabe como os cafés daqui podem ser charmosos e acolhedores. Enquanto saboreava meu café au lait, também reparava no movimento na rua. Pessoas tão diferentes entre si, mas que se você não prestar atenção, parecem tão iguais. Aqui, os lugares têm um ar pensativo. É como mergulhar numa cultura distinta, mas ao mesmo tempo tão íntima. Não se pode evitar que o pensamento voe até se perder, assim como alguém perde o senso de realidade quando se apaixona. E eu esquecia do tempo, esquecia que tinha um vôo programado e que às oito horas estaria dentro de um avião, rumo ao Brasil. Estava me sentindo em casa e nunca é fácil sair de casa. Já tinha me acostumado com a arquitetura, com o ar, com os turistas na Place de la Concorde e, é claro, com as pessoas. Eu, que sempre gostei de observar pessoas, aqui me permiti ser observado por elas. Coisa que é difícil no Brasil, onde tudo acontece rápido demais e quando você cai em si, já te levaram tudo. Se Paris tivesse olhos, eles seriam femininos, sedutores e por mais que estivessem virados para você, ainda assim saberia que estavam vendo muito além, pois é uma cidade que penetra sua alma e não sai. Resolvi pagar a conta e sair do Le Procope. Após caminhar algumas quadras, cheguei à margem do Sena, que me lembrava das paixões que vivi nesta cidade, que por mais intensas que fossem, foram igualmente efêmeras. Nunca parei para pensar realmente nos motivos por não terem durado, mas nunca questionei as razões de terem acontecido, afinal, não tem por que explicar como surgem as paixões. Assim como nunca tentei explicar por que sou apaixonado por arte, por que acontece, por que me afeta de maneira tão singular. E é olhando para este céu acinzentado pelas nuvens, que eu penso como valeu a pena cada momento passado aqui e sinto um frio subindo pela espinha, talvez medo do futuro, pensar em recomeçar é sempre uma idéia um tanto aterrorizante. Eu sei que não poderei voltar atrás, mas que Paris sempre estará aqui. Mesmo que eu rode o mundo, minha Helena estará sempre esperando de braços abertos, porque sabe que o sentimento é verdadeiro. Logo eu, que sempre julguei mal os clichês, fui me apaixonar por Paris. Já são quase cinco da tarde e eu tenho que pegar minhas malas no hotel. Fico me lembrando do primeiro dia que cheguei e do encantamento instantâneo que tive por este lugar. Entrei num táxi e num segundo já estava na porta dos meus aposentos. O tempo parecia mais passar mais rápido, como passa quando nos despedimos de alguém que não queremos que se vá. Fiquei algumas horas olhando para as malas, pensando se havia esquecido alguma coisa e concluí que estava tudo ali. As coisas que não estavam, foram propositalmente deixadas, como quem deixa lembranças na casa da antiga amante, mesmo sabendo que poderão jogar fora, largar dentro de uma gaveta que só será aberta dali a uma semana ou uma década. O que importa é saber que partes de mim estarão aqui. Detalhes apenas – uma caneta com meu nome gravado, uma lista de lugares que ficaram por visitar... – que não interessam a mais ninguém que não eu mesmo. Tranquei a porta e deixei a chave na recepção, pensando que esta era a última vez que o fazia. E, como acontece com tudo que se faz pela última vez, senti aquela ansiedade de quem resiste a uma imposição. Entrei no táxi e segui para o aeroporto. Meu olhar perdido deve ter sido notado pelo taxista, que me perguntou se estava me sentindo bem. Eu sorri e disse que não era nada para se preocupar. Fui para seção de embarque e entrei logo. Assim que sentei, tomei coragem para dar uma última olhada para cidade, que parecia se despedir com o acender das luzes. Mas então me lembrei da pergunta do taxista. Acho que a resposta que não quis dar era que já começava a sentir saudades daquele lugar.


3 Comments


Lindo escrito Stella...


Obrigada, Mariane! :)


Ficou muito bom. Participe de outros concursos que surgirem. Beijos!

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