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Conversas à meia-noite

Posted by Stella on 12:23 in

Noite quente de janeiro sempre oferece surpresas. Nem sempre agradáveis, mas de alguma maneira nessas noites o tédio toma forma e o calor parece envolver as pessoas como um anestésico. Quem fica estressado no calor corre mais risco de ter um ataque cardíaco. E, por acaso, lá estavam eles dois conversando sobre qualquer coisa, só pra não pensar no tédio, no calor.
- O que você acha que a gente podia fazer amanhã?, perguntou ela.
- Ah, sei lá..., disse ele hesitante, podíamos ver um filme... cinema tem ar-condicionado.
- Tô sem grana, mas eu também não iria pro cinema só pelo ar-condicionado.
- Por que não? Você tem alguma idéia melhor?
- Ah, um pessoal comentou de ir pra praia..., ela já estava preparando o campo para o que ia vir...
- Você sabe que eu não gosto de praia.
- Eu gosto.
- O que você quer dizer com isso? (por que existe essa tendência a achar que nunca queremos dizer o que realmente estamos dizendo?) E, nesse instante, ele olhou para ela, já que a resposta demorava a vir.
- Não acho que a gente precise sempre fazer tudo junto.
- Então você não gosta da minha companhia? É isso?
- Olha, tá muito quente pra discutir... só tava fazendo um comentário.
- Comentário... sei.

E eles ficaram em silêncio. Meia-noite e cinco.

Apesar de estar ainda perturbado com o final da conversa, ele não aguentava o calor. Então tentou puxar assunto de novo. - Você QUER ir a praia amanhã?
- Que...não., disse ela quando olhou para os olhos dele.
- Porque se você quiser ir sem mim eu entendo..., falou ele mal disfarçando o descontentamento.
- Não quero mais ir, deixa pra lá.
- Então você queria ir antes?

Meia-noite e sete. Silêncio. Meia-noite e quinze.

- Eu pensei que podíamos fazer alguma coisa diferente., depois de pensar muito, finalmente, ela conseguiu um jeito de responder.
- Ah... a nossa rotina te entedia?
- Não é isso. Só acho que podia acontecer algo novo de vez em quando.
- Outra pessoa?

Meia-noite e dezesseis. Silêncio. Meia-noite e vinte.

- Você não consegue pensar nada bom sobre mim, né?, ela começou a demonstrar sinais de fraqueza.
- Eu só penso que se você está entediada comigo, é porque tem outra pessoa te divertindo.
- Sabe, não estou me sentindo bem.
- Que você tem? Tá tentando fugir do assunto não, né?
- Não..., já não conseguindo mais argumentar.
- Então o que que você tem?
- Tô um pouco tonta.
- Vou pegar um copo d'água pra você...

Meia-noite e vinte cinco. Vai até a cozinha, pega o copo, pega a garrafa d'água na geladeira, enche o copo. Guarda a garrafa, volta pro quarto. Meia-noite e vinte nove.
Ele entregou a água pra ela em silêncio, com um pouco de culpa. Ela pegou, bebeu, devolveu o copo a ele. Ele pôs o copo em cima do criado mudo e deitou-se novamente.

Meia-noite e meia. Ouve-se barulho de sirenes lá fora. Aliviado, ele pegou um cigarro, acendeu e disse:

- O que você acha de irmos à praia amanhã?

4 Comments


Eitcha que complicação! rsrs

Os dois sempre na defensiva!


Cruzes, essa fase num relacionamento é tão triste! ¬¬ Já tive conversas à meia-noite; nem todas foram gélidas como essa! Ufa! =)

Beijocas


É...relacionamntos podem ser muito difíceis...


Vc escreve muito bem, e um relacionamento, principalmente à noite e com esse inferno de calor, atrapalha nosso raciocínio lógico, e quando as coisas não vão bem, ficam ainda piores.

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