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28.07.09 - Pense de novo

Posted by Stella on 11:00 in ,

A diferença básica entre um caso e uma história é como ela é contada. Eu posso começar uma história dizendo que, ao descer do ônibus, agradeci o motorista e lhe desejei boa noite. Então, andei minha rua até chegar em minha casa, entrei, comi, assisti um pouco de tv, fiquei um pouco no computador, li algumas coisas interessantes, me arrumei e fui dormir. Esse seria o fim de um caso, não de uma história. Ou eu poderia começar assim...

Ao descer do ônibus
, agradeci o motorista e desejei-lhe uma boa noite. Não olhei para trás. Talvez tenha sido uma atitude automática, uma reação pré-programada. Será que eu estava realmente agradecida por aquele homem me levar em segurança até a minha casa, ou estava apenas sendo educada? Será que ser educada por ser educada vale alguma coisa? O moço agradeceu o meu agradecimento. Talvez ele tivesse sorrido se eu ao menos demostrasse que me importava. Mas se paro e penso nisso, não é porque me importo? Pensando em tudo enquanto caminho em direção a minha casa não consegui evitar de reparar na quantidade de folhas caídas. Eu sempre achei que quando o inverno estava no fim, as folhas começavam a crescer e não a cair... a gente nunca sabe, de verdade, quando as folhas estão caindo. Essa minha rua me traz umas lembranças difusas, umas musiquinhas que mamãe cantava enquanto eu dormia. Talvez eu tenha essa dificuldade toda de crescer por conta de viver mergulhada em lembranças. Eu tenho consciência da minha nostálgica pessoa e nem sempre gosto dela. Ao chegar na entrada do condomínio, percebo como tudo mudou nesses anos. Eu estive lá enquanto as mudanças aconteciam e nem senti. Será que também é assim com a gente? Será que um dia eu vou acordar e perceber que mudei assim, de repente? Cheguei em casa e já me esqueci do motorista que me agradeceu o agradecimento... como se eu estivesse fazendo um favor. Mas que favor? Eu não entendo as normas de etiqueta. No final, não sei se o homem se importou e nem se eu me importei. Acho que fiquei agradecida sim. Devo ter ficado. Não é? Não sei... melhor pensar noutras coisas.


Ao descer do ônibus
, ela me agradeceu e eu respondi, como faço sempre com todos os passageiros. Mas a moça pareceu incomodada com a minha reação, porque nem ao menos olhou para trás. Desceu num pulo e saiu a passos largos pela rua meio iluminada. Como eu não tenho nada com isso, tomei meu rumo e fui até o ponto final. Chegando lá, estacionei o ônibus e fui pra casa pensando nas contas, nos problemas... por que eu sempre estou pensando nos problemas? É tão difícil pensar nas coisas boas, porque tudo parece estar sempre associado aos prejuízos. Eu devo ser pessimista, só pode. Que nem com a moça que saltou do ônibus. Vai que ela estava com pressa e por isso teve aquela reação esquisita na hora de sair... ou não. Ah, sei lá! Eu deveria estar me concentrando nas coisas pra pagar. Como é que eu vou chegar em casa e dizer que o pagamento não desceu? Não sei. Ela não vai acreditar em mim. Ela nunca acredita. Vai pensar que gastei em bebida, sendo que nem bebo. Deve ser mania de mulher achar que marido sem dinheiro gastou tudo em bebida, jogo ou mulher. Tudo, menos que o pagamento não saiu. Ah, vidinha complicada, viu?! Vou é deixar ela falar... sabe de uma coisa? Eu tô é de saco cheio dessas cobranças. Vou chegar lá e dizer que não quero saber de cobranças. Que não tem dinheiro e fim de papo. É isso. Ah, até parece! Vou fazer nada... vou é parar de pensar nessas coisas, senão acabo é ficando doido mesmo!


Será que é sempre a mesma história?

10 Comments


Não, nem sempre é a mesma história... ou nunca é a mesma história. Cada um tem sua visão das coisas e isso influencia na narração dos fatos, embora eles sejam sempre os mesmos.

Bjs.


vocês mulheres se conhecem mesmo..rss.

A esposa do motorista poderia ter acolhido ele com carinho, entendendo o fato do pagamento não ter saído, a janta da mesa, as crianças dormindo, ela toda linda cheirosa, só esperando o mardão toda feliz e compreensiva.

Utopia minha né???


As letras são as mesmas o que muda é o leitor.


nunca é.
sabe q eu sempre penso nisso? nos "bom dia, boa tarde, boa noite, obrigada, com licença..."
qdn eu esbarro em alguém eu falo de boca cheia "perdão", pq eu odeio qnd isso acontece e odeio qnd acontece cmg tbm. mas a maioria nem olha. dps percebi q qnd me pendem desculpas eu abaixo a cabeça, mas é pq sou timida. serão todos timidos? hahaha té parece..
bjo Stellinha.. seu blog tá cada vez melhor!!!
;****


Uma história contando por dois pontos de vista, nunca é a mesma história. Uma pessoa em cima falou algo bem real: as letras são as mesmas!

só depende de quem as lê...imagine se pessoas diversas escrevem...


Creio que a história é sempre a mesma, em essência, o que vai mudar são os componentes. Só! Certo que divergirão em pontos de vista, mas no fundo são todos agentes do mesmo contexto.

BEIJOS


rs, me lembrou uma crônica de Fernando Veríssimo: O Recital. Já leu?


Brilhante Stella. Nunca é a mesma coisa, pois, há tantos caleidoscópios que até com o "desnecessário apagar das luzes" é possível enxergar diversas formas.
Uma ironia: o caso é o seguinte moça, vocÊ poderia parar de me chamar de moço? (risos) beijo kkkk


Adorei o post. Você é sempre genial. :D


Obrigada pelos comentários, gente!
Voltem sempre! :)

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