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25.06.09 - Escotofobia

Posted by Stella on 14:43 in

Helena não queria ir até o trabalho naquele dia. Ela sabia que alguma coisa não estava bem, mas era sua obrigação ir até lá. Helena R. Freitas tinha quase 30 anos e medo de escuro. Quando o medo de algo é muito grande, você pode sentir esse algo se aproximando há quilômetros e Helena sentia isso. Alguma coisa não ia bem.

Ela saiu do apartamento pequeno no centro e pegou o elevador. A claustrofobia parecia tomar conta dela. Um medo de que o problema fosse começar ali mesmo era maior que ela. Quando a porta abriu no térreo, ela se sentiu a salvo. Como se o elevador fosse o maior perigo do mundo. Ao sair do prédio um barulho foi ouvido e todas as luzes se apagaram. Parecia que havia faltado luz no bairro inteiro. Era dia - cinza, chuvoso, mas ainda assim, dia - e as luzes não faziam tanta falta, exceto para Helena.

Caminhou um passos e parou em frente a uma tv dessas pequenas que estava ligada no motor de um carro, com uns três homens em volta. "...e só deverá haver eletricidade no bairro DeTal a partir de amanhã..." Foi tudo que Helena se permitiu ouvir. Passar o dia inteiro no escuro seria mais do que ela poderia suportar. Desistiu do trabalho e foi correndo a uma loja de departamentos que ficava do outro lado da calçada. Como eles tinham gerador, estava tudo certo por lá, mas no prédio dela não tinha dessas coisas. Então, gastou todo o saldo do certão em luzes de emergência (aquelas que funcionam com bateria). Sentiu-se aliviada. Mas durou pouco essa sensação, porque ela teria que chegar até o apartamento no quinto andar. E a hipótese de subir de escadas NO ESCURO não estava em seus planos.

Foi até um telefone público e tentou ligar para o escritório em vão. Ninguém atendia. Voltou para o prédio e pediu ao porteiro que a acompanhasse até seu apartamento, disse que era medo de baratas nas escadas. Uma mulher de quase 30 anos não pode ter medo de escuro. Isso é coisa de criança e o porteiro certamente iria rir dela.

O porteiro achou graça do medo de baratas e concordou em acompanhá-la até o apartamento. Ele segurou uma das lâmpadas acesa e ela outra. Subiram os cinco andares falando sobre coisas bobas, "como é velho esse prédio, né?", "ninguém cuida também!","pois é, um dia cai!", "e esse tempo está horrível"... quando não se tem nada pra dizer, se fala do tempo. Chegaram até a porta. O porteiro já ia descer quando ela pediu que ele esperasse mais um pouco - ela precisava colocar as lâmpadas em lugares estratégicos antes de ficar sozinha -, como não tinha nada pra fazer na portaria, ele concordou. Ajudou Helena a instalar as luzes e, como recompensa, ela lhe ofereceu um café e uma gorjeta. Ele aceitou tudo de muito bom grado e foi embora.

Ali sozinha no apartamento agora bem iluminado, Helena ainda sentia um imenso desconforto. Só de pensar que sua sala era um ponto luminoso no meio da escuridão da cidade, ela ficava arrepiada. Lembrava das histórias de fantasmas e tentava afastá-las depois. Ficou nisso até pegar no nosso.

Acordou com vários barulhos, horas depois. Pelo visto a luz tinha voltado. Será que o chefe iria brigar com ela pela ausência sem justificativa? Com certeza. Bem, ela tentou ligar.
Foi até a tv. O que viu a deixou gelada. O prédio em que trabalhava havia desabado na tarde anterior. 58 feridos. 36 mortos.

Ela agora era apenas: Helena, 28 anos, desempregada, com medo de escuro e de lugares fechados.

11 Comments


Stella,
felicidadessss!
pelo seu aniversário!
que todos os seus passos sejam sempre iluminados por Deus e que sejas muito feliz!
bjssssss

p.s: adoro o escuro, mas tenho medo de lugares com muita muita gente..me sinto sufocada!


Medos e premonições, às vezes andam juntos.
Com certeza a Helena, vai acreditar cada vez mais nisso.
Um beijão!


ótimo texto.
Muito bom teu blog. Gostei daqui.
Maurizio


adorei o texto
! ! !
e sobre meu post, realmente não suporto murmuração, e a gula pode parecer um perigo, é um perigo mas para comer só é preciso abrir a boca e não ficar ''reclamando'' da vida...
ai ai

abraço
td de bom
volte sempre


adorei o texto
! ! !
e sobre meu post, realmente não suporto murmuração, e a gula pode parecer um perigo, é um perigo mas para comer só é preciso abrir a boca e não ficar ''reclamando'' da vida...
ai ai

abraço
td de bom
volte sempre


Que delícia de blog!


Ela agora era apenas: Helena, 28 anos, desempregada, com medo de escuro, de lugares fechados e principalmente...VIVA.


Bendita falta de luz!


Não tem medo do escuro, não tenho medo de trovão, pois com Jesus estou seguro, ele está meu coração ♫
hahahaha
eu cantava essa musiquinha pra espantar o medo.


rs. e o medo de escuro slavou a vida dela, hein?
Nada é mais verdade do que falar do tempo quando não se tem nada a dizer.
beijos
me faz uma visitinha qq hora


Obrigada pelos comentários, gente! :)
Fazem nem idéia de como é importante pra mim ter um retorno quando escrevo esses contos...
Beijos!

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